Evidências de penas no Dilophosaurus?

Resumo da história:

Isso começa em 1996 quando o paleontólogo Gerard Gierliński atribuiu um traço de repouso com aparentes marcas de penas a um terópode parecido com o Dilophosaurus (ou possivelmente ao próprio Dilophosaurus). E em 2004 o paleontólogo Martin Kundrát chegou a mesma conclusão.

Então está resolvido? Temos evidências de penas para o Dilophosaurus?

…Não tão rápido, colegas!

Um estudo publicado em 2003 por Martin Lockley e colaboradores e outro em 2004 por Anthony J. Martin e colaboradores CONTESTOU a conclusão de Gierliński e de Kundrát sobre os rastros, e atribuíram as supostas marcas de penas a artefatos sedimentológicos (ou seja, não seriam evidências de penas).
Segundo Martin e colegas em 2004: "Essas estruturas e o padrão geral do traçado são, portanto, consistentes com traçados feitos por um terópode que parou, sentou-se sobre os metatarsos e depois mudou seu peso para a direita quando se levantou e retomou o movimento para a frente. Essa interpretação não exclui a possibilidade de que o criador do traço tivesse penas; no entanto, as marcas de arrasto de penas teriam uma aparência muito diferente em comparação com os traços exibidos por este espécime.". Visto isso, tomem cuidado no caso de afirmar que o Dilophosaurus tem evidências de penas usando esses rastros, pois a questão não é totalmente resolvida e o último estudo discutindo o caso não corrobora com as penas!

É errado então fazer uma paleoarte do Dilophosaurus com penas?

A resposta é: não necessariamente… Nós só não temos evidências diretas de penas nesse gênero, e as supostas evidências que temos (os rastros de Massachusetts) não são unanimemente aceitos por todos os paleontólogos como evidência de penas! Mas isso não significa que ele não tivesse penas… Muitos paleontólogos assumem que as penas já estavam no ancestral comum dos terópodes, na verdade muitos argumentam que já estava no ancestral comum do clado Dinosauria, sendo o tegumento filamentoso de ornitísquios homólogos as penas de terópodes! Se as penas são uma condição ancestral dos terópodes ou até mesmo dos dinossauros, é plausível que o Dilophosaurus tenha mantido essa característica… Então você tem esse ponto a favor das penas sem necessidade de usar o rastro de Massachusetts ao seu favor!
Óbvio que muitos dinossauros devem ter perdido penas, mas não temos evidências de que o Dilophosaurus não teve penas e nem de que ele teve (a não ser que você considere o bendito rastro como sendo verdadeiramente uma evidência a favor das penas no Dilophosaurus… O que é discutível).

O que eu digo é: você é livre para fazer sua paleoarte com o Dilophosaurus tendo penas, assim como é livre para fazê-lo sem elas, visto que a evidência de penas em relação ao traço de repouso mencionado acima é discutível, mas ao mesmo tempo embora a suposta evidência de penas atribuída ao rastro de Massachusetts seja contestada em estudos, isso não anula a possibilidade do dinossauro que fez esses rastros ter tido penas (como explicado pelo estudo de 2004 de Martin e coautores).

Isso que eu falei é uma conclusão que eu tirei dos estudos publicados, então não é algo que eu tirei da bunda, evidentemente… Não precisa confiar em mim, mas você pode confiar nos estudos!

Já vi muita gente discutir se é certo ou não desenhar o Dilophosaurus com penas, e me parece que a resposta é: depende!

-Se você concorda que as penas estavam no ancestral comum dos terópodes, então é plausível, por outro lado você pode argumentar que as evidências de penas envolvendo os rastros atribuídos a este gênero (ou animais relacionados) são discutíveis, então você tem esse ponto pra fazer sua arte do Dilophosaurus sem penas.

As vezes as coisas são assim, incertas, e não temos uma certeza absoluta! Então você é livre para escolher o que acha mais plausível… Pra mim, é mais plausível o Dilophosaurus ter mantido penas, sendo penas uma condição ancestral dos dinossauros. Talvez não teve no corpo todo, talvez teve… A verdade é que não sabemos com certeza, e tal suposta evidência de penas para Dilophosaurus, do icnofóssil do terópode em repouso de Massachusetts, parece incerta.

Você já notou que mesmo quando fazem penas em Dilophosaurus, tem paleoartistas que nem levam esse rastro a sério como evidência a favor de penas? Tem um monte de artista que faz o Dilophosaurus com penas em regiões que mesmo em repouso, como estaria o dinossauro do rastro de Massachusetts, as penas não tocariam no chão. As vezes os artistas fazem penas no dorso, ou na parte de trás da cabeça, e nesse caso seria impossível o animal agachado deixar rastros de penas, visto que elas nem tocariam no chão. Então mesmo não levando o rastro a sério como evidência de penas, muito artista não descarta as penas (este é meu caso).

A propósito, não há uma certeza absoluta de que essas marcas foram realmente feitas pelo Dilophosaurus! Elas podem ter sido feitas por um terópode relacionado e semelhante. Se você ler os estudos com atenção, vai reparar que os autores não tem uma certeza de que o rastro tenha sido feito pelo Dilophosaurus ou pelo Lilienstersus (um parente próximo do Dilophosaurus) por exemplo. De qualquer forma o Lilienstersus é relacionado filogeneticamente com o Dilophosaurus, então se os rastros mostram evidências de penas, já é suficiente para presumir que o Dilophosaurus tenha essa característica também, visto que animais relacionados compartilham características em comum! O problema é que a suposta evidência de penas (envolvendo o rastro de Massachusetts) é questionada em outros estudos.

Preferi manter uma posição mais neutra sobre essa questão e, acho que não é necessário brigar pelas penas nesse dinossauro. Não há problemas em ter visões distintas sobre o mesmo animal quando as coisas são incertas!

Aqui está uma arte feita por mim (Johnny Mingau), do Dilophosaurus. Para ver em alta resolução, clique aqui.

Ponto importante: Vale ressaltar que penas em Dilophosaurus é uma questão incerta ainda, mas isso não é verdade para todos os dinossauros! Penas são encontradas em vários dinossauros, e as vezes mesmo quando não são preservadas em algum dinossauro específico como o Deinonychus por exemplo, existem parentes próximos encontrados com penas, então alegar que Deinonychus ou outros dromeossaurídeos não tiveram elas, não me parece muito plausível! Por outro lado, não há parentes próximos do Dilophosaurus com penas preservadas.

[REFERÊNCIAS]

  • Gierliński, G. (1996). "Feather-like impressions in a theropod resting trace from the Lower Jurassic of Massachusetts". Museum of Northern Arizona Bulletin. 60: 179–184.
  • Kundrát, M. (2004). When did theropods become feathered?-evidence for pre-archaeopteryx feathery appendages. Journal of Experimental Zoology Part B: Molecular and Developmental Evolution, 302B(4), 355–364. doi:10.1002/jez.b.20014 
  • Lockley, M., Matsukawa, M., & Jianjun, L. (2003). Crouching Theropods in Taxonomic Jungles: Ichnological and Ichnotaxonomic Investigations of Footprints with Metatarsal and Ischial Impressions. Ichnos, 10(2-4), 169–177. doi:10.1080/10420940390256249 
  • Martin, A.J.; Rainforth, E.C. (2004). "A theropod resting trace that is also a locomotion trace: case study of Hitchcock's specimen AC 1/7". Geological Society of America. Abstracts with Programs. 36 (2): 96. Archived from the original on May 31, 2004.

Dinossauros emplumados

Penas.

Já faz muito tempo que penas são um dos assuntos mais populares quando falamos em dinossauros. As aves, os únicos dinossauros sobreviventes, exibem uma diversidade de penas sob uma diversidade de formas, ou melhor, morfologias.

Em um artigo influente que se tornou um importante modelo para a interpretação de fósseis, Richard Prum delineou um modelo para a evolução das penas com base no desenvolvimento das penas, compreendendo cinco estágios. O estágio I corresponde ao aparecimento de penas simples monofilamentares que crescem de folículos. O estágio II é marcado por várias barbas unidas em uma base comum, formando uma pena semelhante a um tufo... E assim seguem outros estágios até finalmente chegar o estágio V (Prum, 1999). 

(Figura 1) Imagem simplificada da evolução das penas. | Arte de Emily Willoughby

Em 1996 o mundo conheceu o Sinosauropteryx, um gênero de dinossauro chinês que exibia filamentos preservados. Tais filamentos do Sinosauropteryx, são frequentemente chamados de proto-penas, e apesar de muitas vezes ser descrito como monofilamentos não ramificados, as penas do Sinosauropteryx são provavelmente compostas de vários filamentos unidos em uma base comum, em conformidade com o Estágio II (Ksepka, 2020). (Figura 1)

Desenho cartunizado do Sinosauropteryx | Arte de Johnny Mingau

Embora haja muita discussão sobre a distribuição das penas dentro de Dinosauria, eu posso dizer, há tendência para um consenso de que pelo menos os dinossauros celurossauros tinham um ancestral com uma cobertura de penas. Óbvio que estruturas filamentosas interessantes em dinossauros, não são exclusividade apenas de celurossauros, já se sabe que ornitísquios como o Kulindadromeus (Godefroit et al., 2014) e Tianyulong (Zheng et al., 2009) possuíam algo assim! Em Tianyulong, esses filamentos são distribuídos ao longo da superfície dorsal das costas e da cauda, bem como na superfície ventral do pescoço (Zheng et al., 2009).

Um caso interessante em ornitísquios é o do Psittacosaurus do Cretáceo Inferior da China, que preserva cerdas ocas e monofilamentares (Mayr et al., 2002). Há quem argumente que tais cerdas não tenham ligação com as penas. Em Psittacosaurus, as cerdas são mais longas e parecem ter se restringido à linha média dorsal da cauda, enquanto o resto do corpo é coberto por escamas. A homologia das cerdas ornitísquias com as penas permanece um assunto de debate. Alguns trabalhos recentes fizeram comparações com estruturas incomuns em pássaros modernos, como a 'barba' de perus machos, que, ao contrário das penas, cresce continuamente e se desenvolve a partir de papilas epidérmicas em vez de folículos (Mayr et al., 2016). Muitos paleontólogos, no entanto, consideram mais provável que essas estruturas correspondam a penas simples do Estágio I (Ksepka, 2020). (Figura 1)

Tegumento em Psittacosaurus. | Fotografia de Dave Hone

Como os filamentos em dinossauros como Sinosauropteryx evidentemente não serviriam para voar, outras funções eram possíveis, como isolamento térmico ou até mesmo, talvez display sexual. O mesmo é válido para aqueles dinossauros que possuem “asas”, mas certamente não voavam, como os oviraptorossauros.

Muitas vezes, quando usamos o termo ‘penas’, a primeira imagem que pode vir a mente de muitas pessoas são as penas de voo (remiges e retrizes). Essas são penas muito sofisticadas que são essenciais para as aves voarem (embora nem todas as aves consigam voar). As penas das aves crescem dos folículos, e o crescimento das penas fornece evidências contra a hipótese mais antiga de que as penas evoluíram de escamas alongadas: as escamas crescem de forma planar, enquanto as penas emergem dos folículos como estruturas tubulares. Entretanto, ainda há quem argumente que as penas se originaram de escamas (Musser et al., 2015).
Em inglês, existem termos como pennaceous feathers, plumulaceous feathers e em alguns artigos vocês encontram também até o termo filamentous feathers, que traduzindo significa literalmente ‘penas filamentosas’. Todos esses termos possuem “feathers”, porque é literalmente isso que são: penas! Visto isso, é perceptível que as penas podem ter mais de uma forma ou aparência, então quando vocês ouvirem ou lerem a palavra “penas”, não pensem apenas nas penas de voo existentes nas asas das aves modernas, pois essa é apenas uma das aparências que uma pena pode ter, especialmente quando olhamos os fósseis.
Qualquer ornitólogo sabe que a aparência de uma pena não se limita apenas na morfologia de uma pena de voo. Ornitólogos estudam dinossauros vivos, então definitivamente não são só os paleontólogos que estudam dinossauros. As aves exibem penas de diferentes tipos, sejam essas penas semelhantes a uma cerda ou semelhantes a uma complexa pena de voo (remiges). Você já viu por exemplo, uma filopluma? Definitivamente essa pena não tem a morfologia das remiges.

Tipos de penas em aves, abaixo:

Tipos de penas (em aves).

Quando olhamos fósseis de dinossauros, percebemos que vários dinossauros não possuíam penas de voo, tendo o corpo coberto ou parcialmente coberto de filamentos ou cerdas, e embora você possa ler ou ouvir algum paleontólogo chamando as penas de um dinossauro de filamentos ou cerdas, isso não significa necessariamente que essas estruturas não são penas. Termos como protopenas também são usados em certos casos, embora eu conheça paleontólogos que não gostem desse termo. As vezes usa-se o termo “filamentos” ou “cerdas” mais para condizer com a morfologia da estrutura em si. Aliás, repare que usa-se inclusive o termo ‘cerdas’ por exemplo, até para estruturas presentes no corpo de aracnídeos ou mesmo em objetos como as cerdas da escova de dente, não sendo nesse caso um termo que se aplica apenas a certas estruturas em dinossauros (incluindo as aves) evidentemente! Aracnídeos e muitos insetos como lagartas possuem estruturas ocasionalmente chamadas de cerdas que podem ser urticantes, mas que definitivamente não são penas. Então visto isso, o termo “cerda” pode ser usado para descrever estruturas diferentes que pouco tem ligação com tegumentos do clado Dinosauria, e o mesmo vale para o termo “filamentos”. É notável que até mesmo aves modernas também possuem estruturas chamadas de cerdas, e essas estruturas são consideradas penas mesmo não tendo aparência de penas de voo, por isso não pensem que penas são sempre estruturas complexas como seria uma pena de estagio V!

Na maioria das aves, todos os folículos das penas individuais se desenvolvem antes da eclosão. Surpreendentemente, um único folículo pode produzir uma variedade de tipos de penas ao longo da vida de uma ave, desde a penugem natal dos filhotes até as penas maduras desvanecidas.

Existem aves que possuem estruturas como a ‘barba’ de perus machos, que, ao contrário das penas, cresce continuamente e se desenvolve a partir de papilas epidérmicas em vez de folículos, e há uma possibilidade de algumas estruturas em dinossauros (como o Psittacosaurus) não se desenvolverem de folículos. Determinar se tais cerdas se formam a partir dos folículos é crucial para abordar essa questão. Infelizmente, as bases das cerdas preservadas do Psittacosaurus são cobertas por pele sobreposta que se deslocou durante a decomposição, impedindo uma visão clara de seu estilo de fixação, e talvez essas estruturas podem não ser penas verdadeiras! - muitos paleontólogos no entanto, consideram mais provável essas estruturas nascerem de folículos, sendo assim, correspondem a penas simples do Estágio I (Ksepka, 2020). (Figura 1)

À primeira vista, as penas de certos dinossauros podem se assemelhar aos pelos ou cabelos de mamíferos, por serem monofilamentos! Mas não se enganem, apesar dos nossos cabelos se desenvolverem também de folículos, mamíferos e dinossauros não são tão próximos filogeneticamente para considerarmos plausível uma homologia entre tais estruturas, então obviamente pelos de mamíferos não são penas e vice e versa!

Considerando tudo que eu disse aqui, é perceptível que penas podem ter uma diversidade de formas (isso é perceptível em aves modernas, inclusive), e a aparência de uma pena em si, de nada acrescenta na questão do que é ou não uma pena, visto que os estágios evolutivos teóricos das penas (Figura 1), mostram que um simples filamento pode ser uma pena, embora você também possa usar o termo protopenas para esses monofilamentos (penas em estágio 1). Isso significa que filamentos em dinossauros podem ser chamados de penas desde que seja homologo às penas modernas de aves e se desenvolva de folículos! - Ainda há uma discussão se ornitísquios tinham de fato penas, mas em celurossauros não avianos, eu particularmente acho seguro você tratar os filamentos deles como penas!

Origem das penas

Saber quando as penas se originaram não é uma tarefa simples, e pode depender da homologia de estruturas presentes em dinossauros (ou até mesmo em outros arcossauros).

Se as estruturas presentes em ornitísquios são homólogas às penas de terópodes, sendo o ancestral comum de ornitísquios e terópodes emplumado, tendo passado essa característica aos descendentes, isso implica que penas podem ter estado em grande parte dos dinossauros, sendo aqueles que não tinham penas, ausentes de penas porque perderam ao decorrer da evolução. Sendo assim, sauropodes e outros sauropodomorfos não são encontrados com penas porque as perderam ou simplesmente porque tais estruturas não se preservaram.

Nos baseando na filogenia tradicional, os dinossauros se dividem em dois grandes grupos, um deles se chama Saurischia e o outro se chama Ornithischia. No clado Saurischia estão os sauropodomorfos (nenhum sauropodomorfo exibe evidências de penas) e também em Saurischia estão os terópodes, como o Sinosauropteryx (que exibe evidências de penas). No outro lado, no clado Ornithischia, estão ornitísquios como o Kulindadromeus (que exibe evidências de estruturas filamentosas que são provavelmente penas). E o ancestral comum desses dois (Saurischia e Ornithischia) se localiza na base da filogenia dos dinossauros. Se o ancestral comum dos dinossauros foi emplumado, existe uma grande chance de muitos dinossauros terem tido penas, com exceção daqueles que às perderam, porque se o ancestral dos dinossauros foi emplumado, é nítido que os descendentes tenham herdado essa característica, embora seja provável que muitos tenham perdido.

Neste cladograma estilizado, em vermelho vemos a possível homologia das penas de Ornitisquíos e terópodes, mostrando que o ancestral comum do clado Dinosauria pode ter sido emplumado.

Por outro lado, se você se basear na filogenia que contém o clado Ornithoscelida, sendo essa filogenia uma filogenia diferente da filogenia tradicional, o ancestral de ornitísquios e terópodes não está na base da filogenia dos dinossauros. Tendo isso em mente, nesse caso as penas nos dinossauros podem ter se originado no clado Ornithoscelida, e nesse caso, a homologia das penas dos ornitísquios e terópodes remeteriam a um ancestral comum emplumado do clado Ornithoscelida, e não do clado Dinosauria como um todo (o que explicaria não termos encontrado penas ou estruturas semelhantes em sauropodomorfos).

Neste cladograma estilizado, em vermelho vemos a possível homologia das penas de Ornitisquíos e terópodes, mostrando que o ancestral comum do clado Ornithoscelida pode ter sido emplumado.

A questão da homologia fica ainda mais divertida ou complexa quando levamos em conta as picnofibras dos pterossauros, pois existe a hipótese de que as penas dos dinossauros e picnofibras de pterossauros sejam homólogas (Yang et al., 2019). Nesse caso, as penas podem ser mais antigas que os próprios dinossauros, estando no ancestral comum de pterossauros e dinossauros. Confirmar a homologia dessas estruturas não é tão simples no entanto. Porém, merece uma reflexão interessante. O professor Mike Benton, da School of Earth Sciences, da Universidade de Bristol, disse: “Fizemos algumas análises evolutivas e elas mostraram claramente que as picnofibras dos pterossauros são penas, exatamente como as vistas em aves modernas e em vários grupos de dinossauros" (claro que Benton não estava sugerindo que pterossauros possuíam penas de voo como nas aves, isso porque, como já ficou claro anteriormente, as aves exibem uma diversidade de tipos de penas, inclusive penas simples que não se assemelham a penas complexas como remiges).

Neste cladograma estilizado, em vermelho vemos a possível homologia das penas de dinossauros e picnofibras de pterossauros, mostrando que o ancestral comum do clado Ornithodira pode ter sido recoberto de estruturas tegumentares filamentosas.

Considerando que as primeiras penas não eram nada aerodinâmicas, o voo pode ser rapidamente descartado como a explicação de porque as penas evoluíram inicialmente. As penas filamentosas simples dos primeiros dinossauros emplumados, provavelmente seriam aerodinamicamente inúteis. A termorregulação é a explicação mais popular para a função das primeiras penas! Sendo uma hipótese atraente, porque os primeiros dinossauros reconhecidos com penas eram pequenos.

Para dinossauros pequenos, como o Sinosauropteryx, os benefícios em relação a termorregulação de uma cobertura completa de penas difusa são evidentes. No entanto, um sério desafio à hipótese termorregulatória para a origem das penas é a improbabilidade de uma extensa capa de penas surgir instantaneamente. Após reflexão, parece mais plausível que o primeiro dinossauro com penas (ou arcossauro) possa ter tido apenas um pequeno número de monofilamentos simples. Tal distribuição limitada teria fornecido valor insignificante como isolamento. Como vocês sabem, a evolução se dá em etapas graduais e não é provável que penas simplesmente brotaram no corpo todo na sua origem evolutiva! É plausível que os primeiros animais com essas estruturas, tenham adquirido elas de forma que não cobrisse o corpo todo, mas que ao longo da evolução acabassem isolando o corpo todo no futuro!

Se as penas estavam em pequeno número no corpo dos animais no início, não é plausível que elas surgiram para fins de termorregulação, um pequeno número de penas se encaixaria perfeitamente com a hipótese 'tátil'. Muitas aves modernas têm cerdas rictais - penas simples que são conectadas a mecanorreceptores que permitem que desempenhem uma função tátil. Além disso, as cerdas perto dos olhos e das aberturas do nariz servem como 'cílios' para proteger os olhos e o nariz dos detritos. Em teoria, um pequeno número de cerdas táteis cranianas pode representar a distribuição ancestral das penas. A hipótese tátil das origens das penas é convincente, mas no momento nenhuma evidência fóssil de dinossauros (ou outros arcossauros não avianos) com cerdas rictais veio à luz (Ksepka, 2020).

Cerdas rictais de bacurau, uma ave conhecida por habitos noturnos, dificilmente encontrada de dia e que usa suas cerdas perto do bico como sensores que auxiliam na captura de insetos durante a noite. | Fotografia de Johnny Mingau

Perder as penas

O consenso emergente é que a maioria dos terópodes tinham penas cobrindo seus corpos, mas isso não era verdade para todas as espécies. Alguns terópodes muito grandes, incluindo o icônico Tyrannosaurus rex, parecem ter tido um tegumento em grande parte ou totalmente escamoso com base em impressões de pele de regiões do corpo (Bell et al., 2017). Da mesma forma, os gigantescos saurópodes podem não ter penas. Impressões de pele de saurópodes são raras, mas até o momento todos os exemplos sugerem uma cobertura corporal de escamas poligonais não sobrepostas. Impressões de pele em ornitísquios são mais conhecidas de grandes hadrossauros, que parecem ter um corpo coberto por escamas poligonais não sobrepostas baseadas em alguns espécimes notáveis ​​com pele quase completamente intacta. Em outros ornitísquios, parece que uma cobertura corporal em grande parte ou completamente escamosa estava presente em ceratopsianos maiores e nos tireóforos blindados, nos quais escamas epiosteodérmicas ou bainhas cobriam os osteodermas da armadura. Tendo evidências de que muitos dinossauros não possuíam penas, alguns pesquisadores propuseram que estruturas semelhantes a penas evoluíram de forma convergente em terópodes e ornitísquios, e embora essa hipótese mereça atenção, a descoberta do Kulindadromeus exigiria que não só os filamentos simples, como também as ramificações evoluíram de forma convergente. Então é mais provável que as penas evoluíram apenas uma vez e estavam presentes em muitos dinossauros (Ksepka, 2020). Além do mais, a presença de escamas e filamentos em Psittacosaurus e Kulindadromeus ilustra claramente que ter escama não exclui a possibilidade da existência de penas no animal, sendo a falta de pena preservada uma questão de preservação, principalmente se as penas tinham uma distribuição restrita no animal... O que pode ter sido o caso de animais como o Tyrannosaurus rex.

Penas oferecem calor às aves mantendo ar perto do corpo, isolando e prevenindo que elas percam calor para o meio ambiente - essa estratégia é usada pelos humanos há milênios com o uso de casacos e cobertores no inverno por exemplo, com a mesma finalidade de nos manter aquecidos. Além disso, penas são muito importantes no comportamento das aves. Os machos de muitas espécies têm penas coloridas e vibrantes elaboradas em cristas e nas caudas, sendo usadas como sinais durante o acasalamento. O pavão é um dos exemplos mais conhecidos, graças à sua cauda colorida. Em contraste, as penas das fêmeas são frequentemente de cores apagadas, provavelmente para ajudar na camuflagem, evitando chamar a atenção de predadores para os seus ninhos e sua prole. O recém descrito Ubirajara parece ter usado certas penas para exibição, como fazem os pavões.

Penas ajudam na termorregulação, servem como bloqueador solar, ajudam na camuflagem e no caso das asas dos avestruzes, ajudam a virar curvas bruscas quando estão em alta velocidade. Então analisando pelo menos as aves, é perceptível que as penas tenham várias funções que não tenham apenas ligação com o voo, e por isso sabemos que penas não servem só para voar. O que confirma isso é a existência de dinossauros que claramente não voavam, tal como a existência de aves modernas que não o fazem também, embora voar seja uma função crucial para as penas das aves que voam.

Se as penas têm tantas propriedades úteis, por que se perderiam? Uma hipótese particularmente convincente é que grandes táxons, como tiranossauros e saurópodes, podem ter perdido penas devido à seleção para um resfriamento corporal mais eficiente, análogo à perda quase completa de cabelo em grandes mamíferos, como elefantes ou rinocerontes (Bell et al., 2017). Nesse contexto, é interessante que todos os três ornitísquios com penas conhecidos e os terópodes com penas mais conhecidos eram pequenos animais. Outro possível fator na perda de penas pode ter sido a evolução da extensa armadura óssea. Grandes faixas de áreas anteriormente emplumadas teriam sido eliminadas em anquilossauros blindados, à medida que as placas de blindagem se expandiam para cobrir grande parte do corpo (Ksepka, 2020).

Animais maiores geram mais calor, portanto animais menores precisam de mais isolamento que animais maiores. No caso de endotérmicos pequenos como mamíferos, esse isolamento será os pelos, no caso dos dinossauros, o isolamento será as penas! Animais grandes como tiranossaurídeos de corpo grande, grandes ornitísquios ou saurópodes não precisavam de penas para aquecer o corpo, e portanto, nesse sentido, faz sentido a perda completa das penas, ou no mínimo a redução significativa delas no corpo desses animais. Embora alguns paleontólogos como o italiano Andrea Cau, argumentem que seja plausível penas no Tyrannosaurus, é inegável que se ele teve penas, elas não estariam em grande quantidade e o animal não seria majoritariamente emplumado, sendo o grande tamanho, um responsável pela perda de penas em vários táxons de dinossauros. Embora provavelmente tenha havido dinossauros emplumados grandes como o Yutyrannus, é sugestível que dinossauros muito maiores não fossem majoritariamente emplumados.

Boa parte desse texto foi baseado no artigo publicado esse ano (2020) de Daniel T. Ksepka, sendo essa a principal referência desse texto. Para acessar esse artigo, clique aqui.

[REFERÊNCIAS]

  • Prum RO. Development and evolutionary origin of feathers. J Exp Zool. 1999 Dec 15;285(4):291-306. PMID: 10578107.
  • Ksepka, D.T. 2020. Feathered Dinosaurs. Current Biology 30, R1347-R1353. 
  • Musser JM, Wagner GP, Prum RO. Nuclear β-catenin localization supports homology of feathers, avian scutate scales, and alligator scales in early development. Evol Dev. 2015 May-Jun;17(3):185-94. doi: 10.1111/ede.12123. PMID: 25963196.
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  • Baron, M., Norman, D. & Barrett, P. A new hypothesis of dinosaur relationships and early dinosaur evolution. Nature 543, 501–506 (2017). https://doi.org/10.1038/nature21700
  • Godefroit P, Sinitsa SM, Dhouailly D, Bolotsky YL, Sizov AV, McNamara ME, Benton MJ, Spagna P. Dinosaur evolution. A Jurassic ornithischian dinosaur from Siberia with both feathers and scales. Science. 2014 Jul 25;345(6195):451-5. doi: 10.1126/science.1253351. PMID: 25061209.
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