Novo artigo sobre o Spinosaurus (2021)

Novo artigo do Spinosaurus de David Hone e Thomas Holtz.

  • Primeiramente gostaria de deixar claro que isso aqui é como se fosse um resumo do artigo que saiu recentemente (BEEEM recentemente), dia 26/01/2021. Então nada do que eu falar aqui é minha opinião pessoal sobre o assunto (aliás, f*da-se minha opinião. Eu nem tenho uma sobre isso, e se tivesse, não acho que ela seria mais relevante que esse artigo). Isso significa que se você discordar da conclusão desse texto, você não estará discordando exatamente de mim, e sim dos autores desse artigo.
  • Segundamente, esse artigo que saiu, mantém o foco na ecologia desse dinossauro icônico. Não foram encontrados novos materiais relacionados a esse animal.
  • Terceiramente, tentem não ler esse texto ou avaliar esse artigo de David Hone e Thomas Holtz, privilegiando seus gostos pessoais e emoções a respeito desse dinossauro. A ciência não liga para seus gostos pessoais, e com certeza esse artigo também não. Isso serve tanto para os fãs do Spinosaurus de ‘Jurassic park‘, quanto para os apoiadores ferrenhos do Spinosaurus de 2020, de Ibrahim e coautores.

A essa altura, acredito que a maioria dos meus leitores já devem saber que o Spinosaurus de ‘Jurassic Park‘ nunca existiu na vida real… É isso mesmo. O Spinosaurus nunca foi daquele jeito, e acredito que todos já devam saber da cauda e das pernas curtas atribuídas a esse dinossauro, como vocês podem ver na imagem abaixo, tirada do artigo de Ibrahim e coautores (2020). Não vou tocar aqui nos textos do blog do Scott Hartman. Foi mal aí, Hartman.

A recente descoberta de material novo e muito mais completo, trouxe novos dados e com eles novas hipóteses sobre a biologia desse animal (Spinosaurus). Com base em novas descobertas, foi mais recentemente sugerido que o Spinosaurus foi um especialista na água e, se correto, marcaria o Spinosaurus (e potencialmente outros espinossaurídeos) como tendo uma ecologia única para um terópode não aviano.

– Artigos recentes acrescentaram um conhecimento considerável da anatomia do gênero, com a descoberta de um espécime novo e muito mais completo, mas isso também trouxe novas e dramáticas interpretações de sua ecologia como um animal altamente especializado para o ambiente aquático, que perseguia ativamente presas na água. Nesse artigo, os autores avaliam os argumentos sobre a morfologia funcional deste animal e os dados disponíveis sobre sua ecologia e possíveis hábitos à luz dessas novas descobertas.

Eles discutem, com base nos dados disponíveis, que o grau de adaptações para a vida aquática é questionável, e que outras interpretações para a barbatana caudal e outras características são suportadas (por exemplo, sinalização sócio-sexual). Eles argumentam que a hipótese de perseguição de presas na água para o Spinosaurus, sendo um “predador altamente especializado na água” não é tão suportada. Em contraste, um modelo ‘de um animal que pescava predominantemente na linha costeira ou em águas rasas’ não é contradito por nenhuma linha de evidência e é bem fundamentado. No entanto, os autores deixam claro no abstrato que o Spinosaurus quase certamente se alimentou principalmente de presas aquáticas e PODE TER NADADO quando vivo, mas não há evidências de que fosse um predador tão especializado em caça aquática.

Os espinossaurídeos são amplamente considerados como sendo pelo menos parcialmente (ou principalmente) piscívoros e com afinidades potenciais para habitats aquáticos – embora isso não exclua outras presas ou a ocupação de outros habitats! Eles em sua maioria provavelmente capturavam presas nas margens de habitats aquáticos.

Nesse artigo os autores defendem o ‘Modelo Wading‘:

Nessa hipótese considera-se os espinossaurídeos como animais que exploravam principalmente habitats ribeirinhos e semelhantes, nas margens de ambientes aquáticos. Sendo assim, eles seriam generalistas de alguma forma que, além de procurar peixes ou outras presas aquáticas nas costas, eles poderiam capturar suas presas em terra e até mesmo usar seus membros anteriores para cavar em busca de itens enterrados (por exemplo, peixes pulmonados). Eles tinham afinidades com ambientes aquáticos e mandíbulas bem adequadas para capturar presas como peixes! Os espinossaurídeos são conhecidos por terem uma dieta diversificada, incluindo peixes, outros dinossauros e pterossauros!

Eles têm um crânio semelhante ao de um crocodilo, mas notavelmente não tem narinas ou órbitas dorsalmente elevadas. Dados isotópicos sugerem que eles forrageavam em sistemas aquáticos, mas também poderiam passar longos períodos em ecossistemas terrestres.

Os autores argumentam que eles podem ser descritos como semi-aquáticos, uma vez que este termo cobre uma grande variedade de comportamentos e graus de adaptação aquática. Em suma, esses animais agiam como grandes garças ou cegonhas, pegando peixes e outras presas aquáticas das margens da água ou em águas rasas, mas também procurando por presas terrestres.

– Paul (1988) argumentou que os espinossaurídeos tinham um hábito de vida que incluía a pesca, bem como presas terrestres e carniça, observando que não há grandes animais terrestres existentes que sobrevivam apenas da pesca. Embora não seja explicitamente declarado antes, a natação como proposto por Ibrahim e coautores em 2020 se encaixaria potencialmente neste modelo de alimentação de presas aquáticas (no caso, se encaixa com Paul, 1988).

Nesse artigo, os autores vão contra o modelo que essencialmente defende que o Spinosaurus era um predador ativo e altamente especializado em perseguição e captura de presas dentro d’água. A evidência apresentada para apoiar o modelo de especialização de captura de presas dentro d’água foi o esqueleto paquiostótico, dentes entrelaçados, sistema sensorial do focinho, cauda adaptada para nadar, órbitas e narinas posicionadas dorsalmente, membros posteriores reduzidos, dedos dos pés aumentados e possivelmente palmados e ungueais achatados. Sendo assim, o Spinosaurus seria um semi-aquático que ocupa um nicho semelhante ao dos crocodilianos. Isso considera o Spinosaurus um animal altamente adaptado à vida na água, talvez com uma capacidade terrestre reduzida. No entanto, como já ficou claro nesse artigo de 2021, Hone e Holtz vão contra essa interpretação, argumentando que o Spinosaurus foi um caçador na margem da água ou em águas rasas, como uma cegonha por exemplo.

Os autores argumentam que mesmo uma boa evidência de que o Spinosaurus é um nadador forte, não descartaria a possibilidade de forragear na costa ou ter estilos de vida semelhantes – ser um bom nadador não é mutuamente exclusivo para forragear na costa (forragear significa, em ecologia, explorar e procurar alimentos, sem estratégias específicas). Da mesma forma, existem alguns táxons vivos que são nadadores moderados ou até fortes, mas não se alimentam na água ou não são predadores (por exemplo, lontras marinhas comem crustáceos, castores são herbívoros, Dracaena comem caracóis). Como um suposto predador de perseguição aquática, o Spinosaurus tem problemas com instabilidade e alta resistência na água, posição dos olhos e narinas, baixa eficiência de natação, forte ventriflexão do pescoço e assinaturas isotópicas que mostram longos períodos em condições terrestres, evidências de outros espinossaurídeos que se alimentaram de animais terrestres, além de questionamentos sobre sua capacidade de nadar e submergir efetivamente como um todo. Se nadasse para capturar a presa, com base na resistência da água, desempenho e formato do corpo, seria limitado a um ataque de arremesso em águas rasas, e não à predação de perseguição veloz em águas abertas. As informações fornecidas por meio das descobertas recentes, podem sugerir um aumento nas afinidades aquáticas para o Spinosaurus, e ele pode ser capaz de nadar com sua cauda, e até nadar bem em comparação com outros terópodes, mas nada apresentado até o momento contradiz os fundamentos do ‘modelo wading’ (o modelo em que ele ficaria em águas rasas ou na beira da água, e não necessariamente submerso perseguindo presas) e não suporta predação de perseguição ativa.

Segundo os autores do artigo, com base nas informações disponíveis, o Spinosaurus é melhor interpretado como generalista da linha costeira. Capaz de capturar presas aquáticas e terrestres, e talvez um necrófago oportunista, o Spinosaurus adulto provavelmente capturou presas aquáticas ficando em águas rasas ou nas margens de corpos d’água. As posições da narina e dos olhos, juntamente com a forma do crânio e a mecânica do pescoço, permitiriam que eles atacassem com um movimento de corte vertical com o focinho parcialmente submerso. Permanecer em águas mais profundas ou mesmo parcialmente submersas (beneficiando-se da redução da pneumaticidade e do osso paquiostótico) permitiria que eles forrageassem presas bentônicas ou potencialmente dar investidas por trás em animais mais rápidos. Os indivíduos podem forragear em vários ambientes diferentes como estes, reduzindo a competição tanto com predadores terrestres quanto com predadores aquáticos, tendo a capacidade de usar ambos e de mover-se entre lugares caminhando ou talvez até nadando. Limitado a nadar em águas rasas ou na superfície de águas mais profundas, eles podem ter golpeado com membros ou usado uma combinação de cauda e membros juntos. Em termos de competição, eles seriam capazes de caminhar melhor do que os crocodilianos e então explorar as presas aquáticas melhor do que outros terópodes

Você reparou que até aqui, os autores não descartaram que ele conseguia nadar? O que eles argumentam é que ele não seria um perseguidor submerso de presas aquáticas, veloz e ágil, sacou?

O objetivo desse texto é fazer um grande resumo, então não pretendo entrar em detalhes sobre tudo o que o artigo disse! Os autores falam sobre o crânio, entram na questão do pescoço, membros posteriores, locomoção aquática, função da vela dorsal e da cauda e falam dos fatores ambientais. Não quero que esse texto fique monstruosamente grande, até porque isso é para ser um resumão e, espero que isso não esteja grande demais a ponto da maioria não estar lendo até aqui… Aliás, tem agluém lendo até aqui?

pessoal???

Recomendo aqui a postagem do blog de David Hone, falando do Paper (só clicar nessa frase)!

Geralmente o Spinosaurus é comparado com crocodilianos, mas evidentemente existem diferenças claras no crânio de ambos, sendo que o crânio do Spinosaurus não é achatado dorsalmente como os crocodilianos. No entanto, as narinas e as órbitas do Spinosaurus foram posicionadas de forma que estejam próximas à margem dorsal do crânio, de modo que o animal poderia respirar e ver enquanto permanece com o resto do corpo submerso. Entretanto, os autores argumentam que as narinas dos espinossaurídeos são retraídas posteriormente, mas não dorsalmente. Assim, elas não são posicionadas totalmente no topo da cabeça e próximas à margem dorsal do crânio, como em muitos animais aquáticos e semiaquáticos. Uma porção substancial da cabeça precisaria estar acima da superfície para manter as narinas longe da água, e isso contrasta com a postura de repouso de animais como hipopótamos ou crocodilos por exemplo. (Ter a capacidade de deixar as narinas e olhos acima d’agua, não indica necessariamente que o Spinosaurus realmente fazia isso, assim como cegonhas não fazem!)

Crânio de cegonha mostra que as narinas podem ser localizadas mais posteriormente e dorsalmente no crânio, sem que isso signifique que o animal persiga presas submerso dentro d’água. Uma característica também visível em muitos pterossauros, que apesar de também se alimentarem de peixes, provavelmente não passavam boa parte da vida dentro da água submersos e nadando freneticamente atrás de peixes. As narinas localizadas nessa posição, fazem sentido para um animal que mergulha parte do focinho na água para capturar peixes, estando esse animal na margem ou em águas rasas, e não necessariamente submerso.

Como já observado por Hone e Holtz (2019), o sistema sensorial descrito para espinossaurídeos (Ibrahim et al., 2014) não é exclusivo para esses animais, mas está presente em outros grandes terópodes, que carecem de qualquer conexão óbvia com predação no ambiente aquático. Porter e Witmer (2020) observam que, com base nos dados disponíveis de arcossauros, não há razão a priori para pensar que qualquer terópode tenha aumentado a sensibilidade rostral em relação a outros (embora eles não tenham olhado especificamente para os Spinosaurus). Como tal, não há nenhuma razão particular para pensar que os forames do focinho no Spinosaurus correlacionam-se com predação no ambiente aquático. Mesmo que isso acontecesse, tal sistema beneficiaria animais que caçam na beira da água, não sendo exatamente um argumento a favor da caça perseguindo presas submerso na água. Detectar alimentos que se aproximam com um focinho mergulhado na água serviria tão bem quanto detectá-los quando totalmente submersos.

Agora é demonstrado que o Spinosaurus tinha vértebras caudais com espinhas neurais altas e chevrons longos, e estes são interpretados como tendo suportado “um grande órgão semelhante a uma nadadeira flexível capaz de extensa excursão lateral” (Ibrahim et al., 2020). A cauda mostra pré e pós-zigapófise reduzida, o que aumentaria a flexibilidade, e isso é particularmente aparente na cauda distal em comparação com outros terópodes onde essa área é geralmente enrijecida (Ibrahim et al., 2020). Coletivamente, essas adaptações foram hipotetizadas para funcionar para a propulsão aquática.

Para testar o potencial efeito mecânico da barbatana caudal, Ibrahim et al. (2020) criaram um robô simples para analisar o impulso e a eficiência da cauda do Spinosaurus, que se descobriu ser melhor para se impulsionar do que outros dinossauros terópodes, mas um pouco pior do que de crocodilo e salamandra. 

Com base em sua análise, Ibrahim e coautores descreveram o impulso e a eficiência da cauda do Spinosaurus na água como tendo “desempenho … comparável ao dos vertebrados aquáticos existentes que usam caudas expandidas verticalmente para gerar propulsão para a frente enquanto nadam.” No entanto, os crocodilos tiveram uma eficiência 1,5 vezes maior que a do Spinosaurus em seus resultados. Embora crocodilianos sejam excelentes nadadores em comparação com animais terrestres, e também sejam melhores do que alguns outros mamíferos semi-aquáticos, eles têm um desempenho fraco em comparação com outros nadadores, principalmente peixes (Seebacher et al., 2003). O método de nado dos crocodilos foi descrito como sendo “característico de organismos adaptados para baixa velocidade de natação e baixa eficiência, e desempenho de baixa aceleração” (Fish, 1984). Seebacher et al. (2003) considerou que os crocodilos não são otimizados para nadar, e Frey (1992) disse que os crocodilos preferem nadar mais devagar e não são nadadores rápidos de longo alcance. Portanto, a análise de Ibrahim et al. (2020), mostrando que o desempenho do Spinosaurus está bem abaixo do de um grupo de animais nadadores ineficientes e não predadores de perseguição, contrasta com a sugestão de que ele é um aquático especializado na predação de perseguição. As adaptações destacadas por Ibrahim et al. (2020) pode muito bem indicar que o Spinosaurus tinha habilidades superiores de natação em comparação com os terópodes típicos (incluindo seus parentes barioniquinos próximos), mas isso não indica que eles eram nadadores adeptos em comparação com animais semi-aquáticos ou totalmente aquáticos (como seria necessário para um animal que era um predador de perseguição na água).

O artigo discute extensivamente a anatomia dos membros posteriores, cauda e crânio, para concluir que não há evidências conclusivas de que o Spinosaurus era um organismo tão adaptado ao meio aquático, a ponto de perseguir eficientemente presas dentro da água. Isso não significa que o Spinosaurus não poderia nadar. Isso não significa também que o Spinosaurus era semelhante ao Spino de Jurassic Park 3.

Aliás, reparei que muita gente criticou o artigo com argumentos que o próprio artigo respondia. A internet é um lugar complicado. E admiro o bom humor de Holtz, um dos autores do artigo:

Tradução livre:
Nós: ′′ Com certeza acrescentamos que as evidências apontam para a alimentação do Spinosaurus parcialmente, até principalmente, na água, provavelmente mais do que qualquer outro dinossauro grande. Mas essa é uma reivindicação diferente de ser um rápido nadador a perseguir presa aquática.”
Fãs :” PAREM DE DIZER QUE ESPINO NÃO VIVEU NA ÁGUA!! PAREM DE DIZER QUE NÃO COMEU PEIXE!!!”
Nós: ′′ Nós… nós não…”

No artigo, David Hone e Thomas Holtz utilizam uma recostrução esqueletica distinta da reconstrução utilizada no artigo de Ibrahim et al., 2020. Nessa reconstrução, ao invés da famosa vela em forma de ‘M’, a vela tem forma de ‘D’.

Os autores explicam que o arranjo em forma de ‘M’ da vela com um entalhe distinto no meio (como favorecido por Ibrahim et al., 2014, 2020) geraria mais arrasto com duas pontas do que um arranjo em forma de ‘D’ mais típico. No entanto, os autores não entram em grandes detalhes sobre a aparência da vela!


– O que eu entendo disso, é que a vela em forma de ‘D’ faria mais sentido para um animal extremamente especializado no meio aquático, como proposto por Ibrahim e coautores (já que ela diminuíria o arrasto na água). Mas já que Ibrahim et al., (2014, 2020) favoreceram a vela em forma de ‘M’, isso seria mais um ponto a favor do Spinosaurus não ser tão especializado no meio aquático, sendo que a vela em ‘M’ faz mais sentido para um animal não tão especializado na água (A vela em ‘M’ teria dois pontos de atrito com a agua nas extremidades altas).

Lembre-se que este artigo não tem o objetivo e muito menos o poder, de colocar um ponto final a respeito do Spinosaurus. Ainda há muito o que se aprender sobre o Spinosaurus, e novos artigos, argumentos e principalmente novas evidências, podem mudar as coisas.

A conclusão geral do artigo é: o Spinosaurus é uma baita de uma cegonha que, embora pudesse nadar, provavelmente se alimentava predominantemente de presas nas margens ou em águas rasas, não sendo um eficiente perseguidor de presas dentro d’agua. Se não gostou da conclusão, vai lá reclamar com o David e com o Thomas. Obrigado.

Quem tiver interesse em ler o artigo completo (lá tem todas as referências), clique no link a seguir: https://palaeo-electronica.org/content/2021/3219-the-ecology-of-spinosaurus

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